7# ARTES E ESPETCULOS 3.9.14

     7#1 MSICA  CABRA DA PESTE
     7#2 LIVROS  A CONSELHEIRA DO DESAPEGO
     7#3 LIVROS  CIDADOS HONORRIOS
     7#4 VEJA RECOMENDA
     7#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     7#6 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  QUE H NUMA PALAVRA

7#1 MSICA  CABRA DA PESTE
Expoente da gerao nordestina que tomou de assalto a msica brasileira nos anos 70, o pernambucano Alceu Valena lana dois timos discos e estreia como cineasta.
SRGIO MARTINS

     Em 1972, dois cabeludos sados de Pernambuco bateram  porta de Jackson do Pandeiro em Olaria, Zona Norte do Rio. Alceu Valena e Geraldo Azevedo queriam que o intrprete de Forr em Limoeiro e Sebastiana, entre outros sucessos do cancioneiro nordestino, cantasse com eles num festival de MPB. Jackson achava que a gerao roqueira dos anos 60 e 70 estava tomando o lugar da msica regional  e, ao deparar com aqueles jovens com jeito ripongo, deu por certo que eles faziam rock. Mas Papagaio do Futuro, composio de Alceu que concorreria no festival, era uma embolada  e caiu no gosto do chamado "Rei do Rojo".  Alceu Valena quem relembra a reao de Jackson do Pandeiro ao ouvir a cano: "Foi logo chamar a irm: 'Venha conhecer esses cabeludos que no so cabras safados', ele disse". Passados 42 anos, o compositor pernambucano mostra que , isso sim, um cabra da peste. Prova disso  sua produo discogrfica, caso raro em que a quantidade corresponde  qualidade. Em 2014, ano em que se completam quatro dcadas do lanamento de Molhado de Suor, sua impactante estreia em disco-solo, Alceu lanou dois lbuns. Amigo da Arte, com um repertrio  base de frevos, cirandas e maracatus, muitos deles releituras de seus trabalhos anteriores, chegou s lojas em fevereiro. Na semana passada foi a vez de Valencianas, no qual sucessos como Corao Bobo, Anunciao e La Belle de Jour so recriados em verses orquestrais, com execuo da competente Orquestra Ouro Preto. E o cabra ainda est se arriscando no cinema. Ele dirige A Luneta do Tempo, uma histria de cangao com dilogos em ritmo de cordel  o roteiro, claro,  do prprio Alceu. A produo, que deve chegar ao circuito comercial s no ano que vem, levou os prmios de trilha sonora e direo de arte no 42 Festival de Cinema de Gramado. Entre roteiro, captao de recursos, escalao de elenco (Irandhir Santos e Hermila Guedes esto espetaculares como Lampio e Maria Bonita) e filmagem, Alceu demorou quinze anos para concluir o trabalho. 
     Alceu Valena, 68 anos,  parte da talentosa gerao que, na dcada de 70, promoveu o namoro, o noivado e o casamento do som do agreste nordestino com a guitarra eltrica. Os cearenses Belchior, Ednardo e Fagner, o pernambucano Geraldo Azevedo (alm do prprio Alceu) e os paraibanos Z Ramalho e Elba Ramalho, entre tantos outros daquele perodo (veja alguns exemplos no quadro abaixo), renovaram uma tradio que inclua a literatura de cordel, o forr, o baio, a pungncia dos cantadores e at influncias mouriscas. A distoro das guitarras e a eletricidade dos violes ampliaram o volume desse discurso, que se identificou com a contestao do rock. " uma gerao que trouxe o Nordeste  tona", diz Geraldo Azevedo. De todos, Alceu Valena  quem melhor assimilou a energia do rock. Ela se reflete na vibrao de suas apresentaes ao vivo e na fora de discos como Espelho Cristalino (1977) e Cinco Sentidos (1981). No entanto, ser absurdo dizer que ele  um roqueiro. ''Posso cantar rock e blues, mas eles no esto dentro de mim" diz Alceu. Paulo Rafael, guitarrista e brao-direito do cantor e compositor pernambucano, explica que a eletricidade, na msica de Alceu Valena,  regional: "Muitas vezes, o Alceu pedia que a guitarra trouxesse uma sonoridade nordestina, que remetesse aos pfanos ou  rabeca". 
     O sucesso comercial na carreira de Alceu Valena chegou em 1982, com o disco Cavalo de Pau (dos sucessos Tropicana e Como Dois Animais). Mas ele passou por apuros at saborear esse momento. Quando era contratado da Som Livre, nos anos 70, foi queixar-se do atraso no lanamento de Espelho Cristalino. Sonhava ento com um convite da rival PolyGram. "Eu estava conversando com o Joo Arajo, presidente da Som Livre, que insistia em me manter na companhia. De repente o Tim Maia entrou na sala, reclamando que no  estava sendo pago. Tim esmurrou a parede e depois caiu em lgrimas", lembra. O executivo da Som Livre no teve pacincia para lidar com dois reclamantes ao mesmo tempo: na hora, liberou Alceu Valena de seu contrato. Na PolyGram, o msico foi conversar com Paulo Coelho  sim, o futuro autor de O Alquimista , que ento era um dos diretores da gravadora. "Ele pediu licena para ir ao banheiro e nunca mais apareceu na sala. Acho que saiu de l direto para o Caminho de Santiago", conta Alceu. O msico passou ento um perodo na Frana, fazendo shows espordicos e trabalhando em suas composies. Em 1980, assinou contrato com a multinacional Ariola, que estava iniciando suas atividades no Brasil. "Alceu e Elba traziam uma sonoridade diferenciada do Nordeste", diz Marco Mazzola, executivo responsvel pela contratao dos dois. 
     Alceu Valena sobreviveu ao estouro do rock nacional na segunda metade dos anos 80 e ao declnio criativo que acometeu boa parte de seus companheiros de levante nordestino. Nos anos 90, porm, seu nome era citado com certo desprezo pelos jovens do manguebit, movimento encabeado pelos grupos Chico Science & Nao Zumbi e mundo livre s/a. Para essa gerao, Valena era identificado como representante da velha e institucional MPB, e no como revolucionrio da sonoridade nordestina (o prprio Chico Science, porm, nunca mostrou nenhuma animosidade em relao ao cantor). A desconfiana geracional vem se dissipando.  ntida a influncia de Alceu em cantores como Silvrio Pessoa, da segunda leva do manguebit. Bandas de rock como Anjo Gabriel no escondem sua admirao pelo trabalho do cantor. "Mas s a fase roqueira", adverte o baixista e vocalista Marco da Lata. A homenagem menos ortodoxa veio do Hanagorik, banda que recriou os sucessos de Alceu em verso metaleira. A produo  de Z da Flauta, parceiro e ex-integrante da banda do cantor. "Alceu  um roqueiro cantador", define Da Flauta. Cabra da peste, esse Alceu Valena. 

VOZES DO AGRESTE
Os artistas da grande gerao nordestina dos anos 70 seguem ativos e populares  mas seus discos mais relevantes j contam algumas dcadas .

Fagner
Disco mais representativo: Manera FruFru, Manera (1973)
Por que  fundamental ouvi-lo: o lbum de estreia do cantor cearense reunia as qualidades que at hoje pontuam sua obra - o vocal rasgado e a mescla de pop (aqui representado por uma verso do roqueiro Dion) com cancioneiro nordestino 
O que faz atualmente: lanou o disco Pssaros Urbanos e gravou ao vivo um show ao lado de Z Ramalho que deve virar CD e DVD 

Z Ramalho
Disco mais representativo: Z Ramalho (1978) 
Por que  fundamental ouvi-lo: foi o primeiro trabalho-solo do cantor e compositor paraibano, que j tinha um grande currculo: integrara a banda de Alceu Valena e participara de Pabir, lendrio disco psicodlico gravado em parceira com o cantor Lula Cortes. Z Ramalho casa seu estilo de cantador com faixas inspiradas no rock psicodlico 
O que faz atualmente: sem lanar material indito desde 2012, realizou um show junto com Fagner que poder se tornar CD e DVD ao vivo

Elba Ramalho
Disco mais representativo: Alegria (1982) 
Por que  fundamental ouvi-lo: a voz aguda (e em outros momentos estridente) da cantora est no seu melhor, e o repertrio traz o fino da composio nordestina, equilibrando os ento relativos novatos Z Ramalho e Alceu Valena com msicas da dupla Antnio Barras e Cecu - entre elas os hits Bate Corao e Amor com Caf 
O que faz atualmente: est em turn nacional com o espetculo Cordas, Gonzaga e Afins, que provavelmente vai virar DVD. Deve lanar um disco at o fim do ano 

Moraes Moreira
Disco mais representativo: L Vem o Brasil Descendo a Ladeira (1979) 
Porque  fundamental ouvi-lo:  o trabalho que consolidou o talento de Moraes Moreira como compositor-solo e o que alcanou melhores resultados comerciais. Muito calcado no samba, nele Moreira tem parcerias memorveis com Pepeu Gomes - seu ex-companheiro no grupo Novos Baianos -, Jorge Mautner e Fausto Nilo 
O que faz atualmente: excursiona com o filho, Davi Moraes, numa turn que celebra os quarenta anos de Acabou Chorare, clssico dos Novos Baianos 

Geraldo Azevedo
Disco mais representativo: Bicho de Sete Cabeas (1979) 
Por que  fundamental ouvi-lo:  a obra de maior sucesso comercial do cantor e compositor que casou a cantoria nordestina com a bossa nova. Traz pelo menos trs grandes sucessos: a faixa-ttulo, cantada em dueto com Elba Ramalho, Txi Lunar, que junta Elba e Amelinha (ento mulher de Z Ramalho) nos vocais de apoio, e a melhor verso j gravada de Paula e Bebeto, parceria de Milton Nascimento e Caetano Veloso 
O que faz atualmente: est preparando um disco de composies inditas e um DVD de frevo, em comemorao aos seus 70 anos, que completa em 2015 


7#2 LIVROS  A CONSELHEIRA DO DESAPEGO
A mineira Isabela Freitas tinha 19 anos quando terminou com o namorado e comeou um blog. Hoje, aos 23, ela  um best-seller da autoajuda para adolescentes.
BRUNO MEIER

     A mineira Isabela Freitas contava 19 anos quando se viu diante de um "dilema angustiante" que, diz ela, lhe rendeu noites de insnia. Seu sono devia ser leve, a julgar pelo problema: no estava feliz com o namorado, embora todas as amigas achassem o rapaz perfeito para o altar. A deciso que tomou nessa delicada encruzilhada juvenil est estampada logo no incio de No Se Apega, No (Intrnseca; 256 pginas; 29,90 reais), em segundo lugar na lista de autoajuda de VEJA nesta semana: "Acabou. The End. Fim". Isabela decidiu ento tirar uma espcie de ano sabtico do romance, durante o qual no teria namorado firme. "Sempre achei que precisava de algum do meu lado, para desabafar e ficar bem. Mas esse  o papel dos amigos ou dos pais. Namoro  outra coisa", diz. Ansiosa por dividir a sabedoria que iria acumular no seu longo inverno do amor, Isabela abriu uma conta no Twitter para dar seus conselhos sentimentais  os quais em pouco tempo passaram a exigir o espao mais dilatado de um blog. A palavra-chave era "desapego". "Loucos so os que mantm relacionamentos ruins por medo da solido. Qual  o problema de ficar sozinha?", pergunta-se em um dos textos. As leitoras gostaram do recado: o blog hoje tem 100.000 acessos dirios, e Isabela congrega um respeitvel squito nas redes sociais: 160.000 seguidores no Twitter e 115.000 no Instagram. O sucesso chamou a ateno da editora Intrnseca, cujo catlogo, com nomes como Stephenie Meyer, Rick Riordan e John Green,  firmemente lastreado no pblico jovem. Uma sondagem com livreiros no foi promissora: nenhum deles tinha ouvido falar de Isabela Freitas. Mesmo assim, a editora resolveu apostar em um livro inspirado no blog. Lanado no incio de julho, No Se Apega, No superou as expectativas otimistas de seus editores: mais de 100.000 exemplares j foram vendidos, 80.000 deles somente nos trinta primeiros dias. Hoje com 23 anos (e j namorando firme h um ano), a autora best-seller diz que no  exatamente a rocha de independncia que blog e livro propagandeiam: "A verdade  que eu queria ser a Isabela do livro. Mas sou tmida, pessimista e insegura". 
     O nome de Isabela Freitas foi sugerido por um estagirio da Intrnseca quando o editor Jorge Oakim aventou a ideia de lanar um nome jovem que tivesse um nmero considervel de seguidores na internet  e que soubesse produzir textos inteligveis, qualidade que no se v em todo fenmeno das redes sociais. Lanado em 2011, o blog de Isabela atendia a esses requisitos. Tem atualizao diria, est bem organizado em vrias categorias (da conversa no banheiro feminino a dicas de filmes, livros e  indispensvel  maquiagem) e , para usar o jargo, "monetizado", isto , tornou-se uma fonte de renda para a autora. A mineira ("mora em Juiz de Fora, mas vive mesmo no mundo da lua", diz sua apresentao no blog) j  uma mulher de negcios: diz ter o cuidado de no exagerar nos anncios pagos, pois isso espanta os leitores. Mas, de uma distribuidora de filmes, recebe 3000 reais para cada lanamento de cinema que divulga, com direito a sorteio de ingressos entre os leitores. 
     Blogueiros e fenmenos de redes sociais vm entrando no radar de editores brasileiros. A prpria Intrnseca j lanou Eu Me Chamo Antnio, reunindo as frases motivacionais com jeito de grafite feitas pelo publicitrio Pedro Gabriel  que estourou primeiro no Facebook. O livro, lanado em novembro de 2013, j vendeu 130.000 exemplares. No mesmo ms, a Agir lanou Como Ter uma Vida Normal Sendo Louca, a partir dos blogs das paulistas Camila Fremder e Jana Rosa. Como no livro de Isabela, o propsito  dar conselhos s leitoras  "dicas para lidar com as diversidades e situaes do universo feminino", anuncia a obra, que vendeu 40.000 cpias. Barulho na internet, porm, nem sempre se traduz em venda nas livrarias. Os livros da Diva Depresso, impagvel personagem do Facebook, e do grupo humorstico Porta dos Fundos tiveram desempenho fraco. 
     A redao e a edio de No Se Apega, No deram algum trabalho. O livro foi formatado para enfatizar o tema central  o desapego  e privilegiar textos mais longos. "O leitor precisa de algo novo. Ele no vai pagar por um livro cujo contedo ele pode ler de graa no blog", diz Oakim. As fs gostaram. H trs semanas, em um shopping na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, 400 meninas  muitas delas vestidas de rosa, conforme combinado pela internet  passaram at quatro horas numa fila para conseguir o autgrafo da autora (e, obrigatoriamente, uma selfie ao lado dela). Meninos eram raros. A autoajuda de Isabela mobiliza um pblico semelhante quele conquistado pela fico de Thalita Rebouas e Paula Pimenta: garotas muito devotadas s autoras. "Ela  minha inspirao", diz Beatriz Oliveira, 17 anos, estudante que chegou cinco horas antes de a sesso comear. Todas militantes do desapego? Sim, mas no vamos radicalizar: Leo, o namorado de Isabela (e, por consequncia, personagem do blog), foi recebido com gritinhos pelas leitoras. Quando questionadas sobre a razo do alvoroo, a resposta vinha quase em unssono: "Ah, ele  fofo". 


7#3 LIVROS  CIDADOS HONORRIOS
Um jornalista e um historiador exploram o caso antigo, e srio, entre os brasileiros e a capital francesa. Com direito a imperador sem ritmo e ex-presidente ruim de samba.
MARIO MENDES

     Em 1998, um casal de brasileiros chegou para jantar na casa de amigos no 7me arrondissement, bairro elegante de Paris. Na entrada do prdio, depararam com uma pilha de livros que ali estava  espera dos lixeiros. No topo, destacava-se um certo Capitaine de la Mer Ocane muito bem conservado que, aberto, revelou a seguinte dedicatria: "Para o amigo Claude Perdriel, com um abrao", seguido da assinatura do autor, Jos Sarney. A traduo francesa de O Dono do Mar, romance do ex-presidente, fora descartada por Perdriel, diretor do semanrio Nouvel Observateur, aparentemente sem ao menos ter sido folheada. E no, o Capitaine de la Mer Ocane de Sarney no acabou no lixo. Teve destino bem prosaico, como revela mais adiante o jornalista Milton Blay, em Direto de Paris  Coq au Vin com Feijoada (Contexto; 224 pginas; 39,90 reais). 
     Em uma tarde de vero de 1903, o brasileiro Alberto Santos Dumont estava trabalhando quando decidiu tomar um cafezinho. Sobrevoando a imponente Avenida Champs-lyses em um pequeno balo dirigvel, aterrissou em frente ao prdio onde morava e tranquilamente subiu at seu apartamento. Uma multido se juntou para ver tanto a chegada quanto a partida, minutos depois, do "pai da aviao". Toda a imprensa da cidade noticiou o acontecido, e hoje uma placa comemorativa pode ser vista na porta do edifcio. O episdio serviu de mote para um guia sobre a capital francesa que o historiador Maurcio Torres Assumpo comeou a escrever, mas transformou em A Histria do Brasil nas Ruas de Paris (Casa da Palavra; 496 pginas; 59,90 reais). 
     Separadas por quase 100 anos, as duas histrias chegam ao mesmo tempo s livrarias e tm em comum o fato de ser escritas e protagonizadas por brasileiros em Paris. A viso e a ambio de cada livro, porm, so bem diversas. Blay, correspondente do grupo Bandeirantes, chegou a Paris em 1978, jovem, recm-casado e com a expectativa de permanecer apenas trs meses. Nunca mais voltou. Seu Direto de Paris  um apanhado de impresses sobre a cidade adotiva (do passado charmoso de locais como a brasserie La Coupole at a burocracia surreal das reparties pblicas), encontros com notveis (como o pintor Marc Chagall e o diretor Orson Welles), casos saborosos e imbrglios envolvendo polticos de c e de l. Sarney aparece novamente, assassinando sem pudor o samba Saudosa Maloca em um bistr, e o mulherengo ex-presidente francs Jacques Chirac faz observaes maliciosas diante de uma obra de Picasso. Como um flneur descontrado ciceroneando amigos pelas ruas de Paris, Blay compara sua experincia na Frana a uma relao de amor. Nesse roteiro, mistura personagens de fico, como a sedutora Emmanuelle, do filme ertico dos anos 70, e da realidade desagradvel, como o poltico de extrema direita Jean-Marie Le Pen. 
     J o historiador Assumpo, que vive na cidade desde 2008, assume um trabalho de flego ao investigar quase dois sculos de pegadas ali deixadas por brasileiros ilustres, entre os quais os imperadores Pedro I e Pedro II, o compositor Villa-Lobos e o arquiteto Oscar Niemeyer. H o dia de 1831 em que Pedro I pegou emprestada a batuta do compositor italiano Gioachino Rossini e regeu uma orquestra, sendo prontamente trucidado pelos crticos. Ou a visita-surpresa feita por Pedro II ao seu dolo, o escritor Victor Hugo, um republicano ferrenho que engoliu as convices polticas, entabulou uma conversa formal sobre a criao de netos e terminou autografando uma foto para o monarca tropical. J Villa-Lobos se esfora para mostrar aos intelectuais parisienses que sua msica  mais elaborada que os sambas tocados por Pixinguinha e os Oito Batutas nas noites frenticas do clube noturno Le Shhrazade, em 1922. Assumpo tambm no abandona a ideia inicial do guia de viagem: fornece ao final de cada captulo um roteiro com os locais onde a ao transcorreu  restaurantes, cabars, monumentos e edifcios histricos , alm de links com referncias musicais e visuais no YouTube. 
     Sobre tudo, paira o encanto da cidade, apreciado numa caminhada pelas ruas de Saint Germain, reduto da antiga intelectualidade bomia, ou no fascnio diante do relgio Santos, criado especialmente para o aviador brasileiro, na vitrine da joalheria Cartier.  como diz Humphrey Bogart em Casablanca: sempre teremos Paris.


7#4 VEJA RECOMENDA
CINEMA
UM AMOR EM PARIS (LA RITOURNELLE, FRANA, 2014. ESTREIA NESTA QUINTA-FEIRA NO PAS)
 Em sua fazenda na Normandia, Brigitte (Isabelle Huppert) se aborrece com a obsesso do marido, Xavier (Jean-Pierre Darroussin), por sua criao de gado charols e preocupa-se com um eczema que os dermatologistas que ela consulta classificam sempre como resultado de stress. Uma ideia de que stress pode ser esse surge quando, na casa vizinha, um grupo de jovens d uma festa e um rapaz bonito, Stan (Pio Marma), joga charme para Brigitte, dizendo que as garotas ali so novas demais para ele. Brigitte, que vem sentindo as pontadas da juventude que se foi, finge ter uma consulta com um novo dermatologista e se manda para Paris, para encontrar-se "por acaso" com Stan. Suas intenes, porm, so confusas para ela prpria: enquanto marca encontros com Stan s para fugir dele, termina atando um namorico com o periodontista dinamarqus Jesper (Michael Nyqvist), o qual acaba levando mais adiante do que pretendia  sem imaginar que seu marido j se inteirou de sua escapadela. Darroussin e Isabelle brilham em uma histria que, assim como Copacabana, a colaborao anterior da atriz com o diretor Marc Fitoussi, trata da necessidade vital de sonhar um pouco s vezes.

FILHA DISTANTE (DAS DE PESCA, ARGENTINA, 2012. J EM CARTAZ NO PAS)
 Praticante de um cinema de simplicidade monstica, o argentino Carlos Sorn , no entanto, um dos realizadores mais complexos da Amrica Latina hoje: em filmes como o espetacular O Cachorro, de 2004, os cortantes sons naturais e as escassas figuras humanas que pontuam a paisagem vasta e desolada da Patagnia  sua locao predileta  tm todos funo crucial; nenhum dos poucos dilogos, por mais casuais que possam soar,  suprfluo; e todos os mnimos acontecimentos da trama tm repercusso profunda. Em Filha Distante, o cineasta novamente revela sua maestria no manejo desses elementos to esparsos. Marco (Alejandro Awada), cinquento e solitrio, viaja  Patagnia sob o pretexto de iniciar-se na pesca a tubares  muito embora bastem dez minutos de balano no barco para mand-lo para o hospital. Seu intento real, contudo,  localizar a filha Ana (Victoria Almeida), que se casou, tem um beb e mora em algum povoado por ali, para reconectar-se com ela. Uma conversa casual num restaurante de beira de estrada, um jantar em famlia repleto de pequenos embaraos, uma noite vazia num quarto de hotel  no h ocasio que Sorn, com sua quietude e sua intensidade, no seja capaz de transformar numa experincia devastadora.

DISCOS
O TERNO (TRATORE)
 Formado por Tim Bernardes (guitarra e vocais), Guilherme d'Almeida (baixo) e Victor Chaves (bateria), O Terno  inclassificvel. Tem uma forte influncia do rock ingls dos anos 60, mas suas criaes no cedem ao passadismo reverente. H sambas no repertrio do power trio, porm nada que cheire a naftalina (ao contrrio do que acontece com tradicionalistas da Lapa, no Rio de Janeiro, e da Vila Madalena, em So Paulo, e com outros tantos mauricinhos de todo o pas que tocam pandeiro e falam em "autenticidade"). O legado da chamada "vanguarda paulista" surge nas letras cheias de ironia (Vanguarda? e Brazil) ou no experimentalismo de Medo do Medo, que traz a participao do tropicalista Tom Z. Mas O Terno tem, sobretudo, personalidade  definida pela voz esganiada de Bernardes, pela tcnica de sua guitarra e por uma revigorante falta de pudor em explorar diversos gneros musicais. O Terno, o segundo disco do trio paulistano, aprimora as qualidades exibidas em 66, seu trabalho de estreia. O repertrio vai do blues ao rock rasgado (Ai, Ai, Como Eu Me Iludo e O Cinza), da balada ao rudo (Eu Vou Ter Saudades e Vanguarda?).

BEETHOVEN: CONCERTO 5, SONATA OP. 111, NELSON FREIRE, RICCARDO CHAILLY E ORQUESTRA GEWANDHAUS DE LEIPZIG (DECCA/UNIVERSAL)
 O mineiro Nelson Freire tinha apenas 12 anos quando tocou pela primeira vez o Concerto para Piano N 5, de Beethoven. A performance rendeu a ele o stimo lugar no Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro e uma bolsa de estudos para se aprimorar em Viena, concedida pelo ento presidente brasileiro Juscelino Kubitschek. Cinquenta e sete anos depois, essa obra do gnio de Bonn inicia outro ciclo na carreira de Freire. O concerto  o primeiro da integral dos Concertos para Piano. Foi gravado em parceria com o maestro italiano Riccardo Chailly e com a estupenda Gewandhaus, de Leipzig. Tambm conhecido como Imperador (epteto que saiu da pena de um editor ingls, e no do prprio Beethoven), este concerto no exige a destreza tcnica dos de Brahms  que Freire gravou com o mesmo regente e orquestra. O Imperador pede, no entanto, equilbrio perfeito entre a preciso clssica e o vigor nos movimentos. O pianista brasileiro atinge esse equilbrio com certa facilidade. Esta gravao mostra uma interpretao quente, romntica, que s Nelson Freire  capaz de atingir.

LIVRO
20 POEMAS PARA LER NO BONDE, DE OLIVERIO GIRONDO (TRADUO DE FABRICIO CORSALETTI E SAMUEL TITAN JR.; EDITORA 34; 112 PGINAS; 34 REAIS)
 Este  o livro de um poeta globe-trotter. H poemas dedicados a Veneza, a Verona, a Sevilha, a Dacar e ao Rio de Janeiro, onde "por apenas quatrocentos mil-ris se toma um caf, que perfuma todo um bairro da cidade durante dez minutos". Mas  tambm a obra inequvoca de um argentino  mais precisamente de um portenho. Oliverio Girondo (1891-1967), nome fundamental do modernismo argentino, fala de sua Buenos Aires natal com ironia afetiva: "No fim da rua, um edifcio pblico aspira o mau cheiro da cidade". Lanado na Frana em 1922, 20 Poemas para Ler no Bonde traz, desde o ttulo, o entusiasmo s vezes ingnuo que os modernistas em todo o mundo nutriram pela paisagem urbana. Os versos livres, pontuados por metforas ousadas, so apresentados em verso bilngue. A edio  ilustrada por fotos do argentino Horacio Coppola (1906-2012), que retraam cidades como Berlim, Paris, Rio e Buenos Aires. 


7#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- A Culpa  das Estrelas. John Green. INTRNSECA
2- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito
3- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
4- Quem  Voc, Alasca? John Green. MARTINS FONTES 
5- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
6- Felicidade Roubada. Augusto Cury. SARAIVA
7- O Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA
8- Cinquenta Tons de Cinza. E.L. James. INTRNSECA 
9- A Seleo. Kiera Cass. SEGUINTE
10- Divergente. Veronica Roth. ROCCO

NO FICO
1- Getlio 1945-1954. Lira Neto. COMPANHIA DAS LETRAS
2- Sonho Grande. Cristiane Corra. PRIMEIRA PESSOA 
3- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD
4- O Livro da Psicologia. Nigel Benson. GLOBO
5- O Livro dos Negcios. Vrios autores. GLOBO 
6- Mentes Consumistas. Ana Beatriz Barbosa Silva. PRINCIPIUM 
7- No  a Mame  Para Entender a Era Dilma. Guilherme Fiuza. RECORD
8- O Livro da Economia. Vrios autores. GLOBO
9- O Livro da Filosofia. Vrios autores. GLOBO
10- O Demnio do Meio-Dia. Andrew Solomon. COMPANHIA DAS LETRAS

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA
2- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA
3- De Volta ao Mosteiro. James Hunter. SEXTANTE
4- Pais Inteligentes Formam Sucessores, No Herdeiros. Augusto Cury. SARAIVA 
5- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE 
6- Casamento Blindado. Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
7- Foco. Daniel Goleman. OBJETIVA
8- Sonhos No Tm Limites. Igncio de Loyola Brando. GENTE 
9- Kairs. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM 
10- Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER 


7#6 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  QUE H NUMA PALAVRA
     Presidente Marina Silva.  hora de comear a se acostumar. Boa notcia  que ningum ser obrigado a trat-la de "presidenta". Se Marina, quando se refere  atual ocupante do cargo, diz "presidente Dilma Rousseff, no h de querer que venham a trat-la de "presidenta". A questo no  irrelevante, pelas seguintes razes: 
     1. "Presidenta"  uma das ferramentas que ajudam a cavar o fosso de intolerncia hoje no centro da poltica nacional. Quem fala "presidenta" est dispensado de usar adesivo no carro ou button na lapela. J expressou sua adeso  atual detentora do poder. O PT  o Tea Party com sinal trocado da luta poltica brasileira (no   toa que ostenta as mesmas iniciais, em ordem inversa). O Tea Party radicalizou a poltica americana.  intransigente nas negociaes, dificulta a construo de consensos e j por duas vezes conduziu o governo  paralisia. O PT no passado recusou-se a assinar a Constituio e expulsou parlamentares que votaram em Tancredo Neves. No presente, atribui-se a refundao do pas, negando contribuies de governos anteriores, e a chave da histria, recusando reais parcerias. "Presidenta" representa o mesmo papel de "ns ou eles". Quem diz "presidenta" est conosco; quem diz "presidente" est contra  
     2. "Presidenta" exacerba ao ridculo o respeito ao "politicamente correto" na questo de gnero. Marta Suplicy tinha razo quando, ao assumir a prefeitura de So Paulo, mandou trocar as placas de seu gabinete para "prefeita". Ela era indiscutivelmente "prefeita", no "prefeito". A lngua portuguesa no admite a forma "prefeito" para uma pessoa do sexo feminino. O mesmo no ocorre com a palavra "presidente", e tanto no ocorre que Dilma disse na semana retrasada, ao defender a ocupante da presidncia da Petrobras: "A presidente Graa Foster respondeu perfeitamente sobre a questo dos seus bens numa nota oficial". No  crvel que Dilma considere Graa Foster menos merecedora do "presidenta". O que ela fez foi deixar-se levar pelo piloto automtico, e o piloto automtico da lngua portuguesa indica o uso da palavra "presidente" tanto para homem como para mulher. "Presidenta"  um artificialismo que trai a inteno de traar uma linha de defesa. A recusa ao tratamento seria evidncia de machismo; logo, quem criticasse Dilma chamando-a de "presidente" o faria por ela ser mulher. 
     3. "Presidenta" refora o autoritarismo e os maus bofes da atual ocupante do cargo. Sabe-se que  pesado o clima entre Dilma, seus ministros e assessores. Tem-se notcia de cobranas e broncas horrorosas. Imagine-se o cuidado dos colaboradores em no errar na ltima slaba. "Presidenta, presidenta", tero muitas vezes mentalmente se repetido,  medida que avanavam para a temvel audincia. Quantas vezes a falta de um "presidenta" no ter potencializado o notrio mau humor de Dilma, evidenciado na semana passada pela expresso carrancuda com que tantas vezes foi flagrada pelas cmeras no debate da TV Bandeirantes? 
     4. "Presidenta"  feio. No  que seja errado. Est l no Dicionrio Houaiss: "Presidenta  1. mulher que se elege para a presidncia de um pas; 2. mulher que exerce o cargo de presidente de uma instituio". O caso  que entre "presidenta" e "presidente", que tambm pode ser usado para mulheres, a lngua corrente escolheu a segunda forma, talvez levada pela estranheza de uma terminao em "ente" admitir ser distorcida para "enta". O normal, como em "adolescente", "gerente", "assistente", "confidente" ou "conferente",  a palavra servir aos dois gneros. Presidente Marina Silva. Ela  mida, tem voz de criana, usa o cabelo preso e arrematado num simples coque, no armado por cabeleireiro famoso, e lembra Frida Kahlo, nas sobrancelhas grossas, na cor da pele e na figura frgil. Para culminar, no pede para ser chamada de "presidenta"  uma das razes pelas quais traz um sopro renovador e desestabilizante  corrida presidencial. 
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     A JBS/Friboi saiu na frente e doou 5 milhes de reais  campanha de Dilma Rousseff, 5 milhes  de Acio Neves e 1 milho  de Eduardo Campos. No contava com as trapaas do destino. Agora deve 4 milhes a Marina Silva. A dinheirama na campanha atrai mais dinheirama, inclusive a dinheirama escusa como a usada para alugar/comprar jatinhos de candidatos. Moral da histria: barateamento j!  indecente e grotesco o preo a que gostosamente a democracia brasileira se deixou taxar.


